José Lima Santana
Padre, professor universitário e advogado
Quando eu era menino de calças curtas, lá pelos meus seis, sete anos, não
entendia porque o velho Gimio, Gemiliano Correia Lima, não morava com a mulher,
Dona Joventina, que residia perto da nossa casa, numa casinha recuada, que ficava num
pequeno sítio. Gimio e Joventina formavam o primeiro casal separado que eu conheci. E
eu já os conheci bem velhinhos. Os dois filhos do casal, Derno de Gimio e Pedrinho de
Gimio, a quem papai, em 1962, comprou a casa no local onde eu moro até hoje,
sustentavam o pai e a mãe.
O que eu não sabia, naquela época, era que uma das minhas tias paternas, que
morava com a minha avó, era separada do marido. Tia Nazaré, adorava escrever cartas e
guardava as cartas recebidas dos parentes e das amigas em várias caixas de sapatos. Eu
adorava lê-las, quando já era bastante letrado para isso. E ela gostava que eu lesse as
cartas que ela ia enviar às amigas e primas, estas morando no Rio de Janeiro, filhas do
meu tio-avô João Soares Santana, “seu” Dadá do Queijo. Todas as cartas da minha tia
Nazaré começavam assim: “Que hora feliz, quando eu lanço a mão nesta caneta para dar
as minhas notícias e saber das suas”. Caneta-tinteiro “Parker”. Era sempre assim. Não
mudava nunca.
Tia Nazaré era um doce de tia e de pessoa. Alegre como só ela sabia ser.
Divertida. Vivia a cantarolar as músicas de Ângela Maria. E costumava pedir músicas,
nos programas da Rádio Cultura, que ela escutava. E não perdia as novelas radiofônicas.
Ela escrevia para a Rádio uma vez por semana e oferecia as músicas aos parentes e
amigas, com especial destaque para Dona Lindaura, que trabalhava numa escola em
Aracaju, e era a melhor amiga da minha tia, que passava dias na casa dela. Eu tinha
vontade de conhecê-la, porque a letra dela era belíssima, mas não tive a oportunidade.
Pois bem. Mais tarde, já mais taludo, lá pelos dez anos, eu tomei conhecimento
que tia Nazaré fora casada com um sujeito de Siriri. O namoro, que não foi bem visto
pela família, nasceu quando minha tia esteve em Siriri, numa festa, na casa de outro
meu tio-avô, José Messias Soares Santana. O chamego começou a partir dali. Em
poucos meses, deu-se o casamento religioso. Não o civil.
Abro um parêntese para dizer que tio José Messias foi o revolucionário da
família. Sobre isso, eu já escrevi um artigo, publicado no Jornal da Cidade, em
27/01/2013, página B-11, com o título de “Um revoltoso na família”. Deixo, porém, um
brevíssimo relato, inclusive, complementando aquele artigo. Esse meu ascendente
juntou-se ao coronel Vicente Ferreira da Silva Porto (Sinhô Porto), na famosa “Coluna
Dorense”, em 1906, para ir a Aracaju e lutar ao lado de Fausto Cardoso. O acadêmico
Manoel Cabral Machado e a historiadora Terezinha Oliva muito bem retratam sobre o
movimento de Sinhô Porto, naquele distante 1906. Tio José Messias, após a “Coluna”
regressar de Maruim, onde os seus membros pegariam o saveiro para Aracaju, pois ali
receberam a informação da morte do tribuno, escondeu-se por uns dias, a fim de fugir às
perseguições do governo de Guilherme de Campos, e demandou para a Bahia. Tempos
depois, regressou e fixou residência em Siriri, cujo nome primitivo era Freguesia de
Jesus Maria e José de São Gonçalo do Pé do Banco, ao passo que Dores outrora
chamava-se Enforcados. José Messias ali constituiu família e morreria, certo dia,
quando ralava o milho para o cuscuz. Um infarto o liquidou. Aliás, esse é o mal que
mais mata na nossa família.
Voltando a tia Nazaré, o casamento teve a assistência do Cônego Miguel
Monteiro Barbosa, natural de Maruim, mas com família em Laranjeiras (a família
Monteiro, de Ezequiel e Alceu Monteiro), e que, como reitor do Seminário de Aracaju,
acolheu um seminarista que saiu do Seminário de Maceió, porque por lá disseram que
ele não tinha vocação para ser padre: Avelar Brandão Vilela. E porque não tinha
vocação para ser padre, chegou a Cardeal. Se tivesse, chegaria a Papa. O Cônego
Miguel ainda foi prefeito de Dores e, antes, deputado à Constituinte estadual de 1935.
Mais uma vez, volto a tia Nazaré. Poucas semanas depois do ato religioso, ela
descobriu que o marido tinha, como ela dizia, uma quenga, na Rua do Capuco, em
Siriri. Houve um bate-boca. Ele partiu para dar umas tapas em minha tia, que o escorou
com um espeto de assar carne-de-sol, especialidade da nossa família (meu pai e meus
dois tios eram marchantes, além de outros parentes). Acalmados os ânimos, meu pai e
meus tios, avisados do ocorrido, demandaram a cavalo para Siriri, apenas para avisar ao
tal cunhado que se ele se atrevesse a tocar um dedo na irmã deles, morreria, mesmo que
se metesse nas profundezas dos infernos. A bem da verdade, ele nunca mais ousou.
Todavia, o casamento foi desmoronando, a ponto de minha tia não dirigir mais a palavra
ao marido.
Ele era barbeiro e a barbearia era anexa à casa residencial. Quando tia Nazaré
preparava a comida e a colocava à mesa, para não dirigir a palavra a Luiz (esse era o
nome do sujeito), ela dizia em alto e bom som: “A mosca cai”!
Poucos meses depois, nos anos 50, meu pai foi buscar a irmã, que morreria na
companhia de minha avó Zulmira e de minha tia Maria das Graças, a 8 de março de
1972.
Ainda hoje, a minha mãe se refere a essa frase emblemática de tia Nazaré: “A
mosca cai”! Isso ocorre quando eu demoro a ir à mesa, como no sábado, 16/05.