Neu Fontes
Cantor, Compositor, Produtor e Gestor da Cultura
Uma das maiores dificuldades de implementar políticas públicas na área na cultura está em estabelecer formas democráticas e transparentes de acesso dos atores da cultura e da população a essas políticas, dentre as quais a possibilidade de garantir que todo cidadão ou instituição cultural possa captar recursos e ser parte integrante de uma política pública de cultura, contribuindo de forma direta no processo de criação dessa política, elaborando projetos para serem analisados e fomentados com recursos públicos.
Foi assim que comecei meu trabalho de Pós graduação na área da cultura na UFBA, trabalho que escrevi com a experiência de estar gestor durante cinco anos em Laranjeiras a Capital da Cultura Popular e conviver com todos os mestres e brincantes daquela cidade. Resolvi escrever sobre o Cacumbi e seu Mestre Deca, um respeitado homem da cultura popular que se transformou em um grande amigo.
O Cacumbi é um folguedo popular, sua origem se perdeu no tempo, impossibilitando dessa forma, marcar com exatidão a sua fixação no País. Sabe-se que o folguedo vêm da variação de Autos e Bailados, como as Congadas, Guerreiros, Reisados, Lambe Sujos e Caboclinhos que são variações de denominações, mas que vem de um só referencial a “Luta entre o Rei negro e Rei indígena”. Tendo um conteúdo dramático na sua apresentação. Cacumbi,Quicubi, Catumbi e Ticumbi, são nomes dados a diferentes folguedos afro-brasileiros que têm os Reis Congos e o louvor a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário em comum, uma variante das congadas. Uma manifestação de puro sincretismo brasileiro. O Cacumbi era uma prática exercida pelos escravos africanos nos canaviais e representa as guerras entre reis e rainhas contra os *escravos.
De uma entrevista dada pelo Mestre Deca a professora Beatriz Dantas tirei essas duas respostas a primeira de 1985 e a segunda de 2008 do Mestre: […] Por que ninguém olha pro lado da gente. A gente fica ai… só chega pra gente quando é tempo de brincadeira e depois fica prá lá. Não tem nada, entendeu? Eu e todos os chefes merecia nós ter um cachêzinho mensal ou por semana, entendeu (Mestre Deca, 1985).
[…] O senhor se arrepende de ter sido um mestre de uma manifestação tão importante como o cacumbi? Não. Eu tô arrependido agora. Oi, nos meus trinta e três anos de encontro, eu me arrependi devido às ingratidões… Nós brinca em Aracaju, Itabaiana, em qualquer lugar, entendeu? Lá fora pagam, mas aqui! aqui só recebi dinheiro duas vezes em trinta e três anos. Oi, se eu disser uma coisa, o senhor não vai acreditar, sabe o que fizeram com a gente? Chamaram a gente pra uma apresentação, pra uma filmagem na porta da igreja da matriz, e eu reuni meu grupo, acertei tudo direitinho e quando acabou sabe o que vieram me dar? duas garrafas de 19 pitu, eu me conformei e fiquei com isso guardado, entende? Esse ano eu ainda me fardei aqui, mas a dor que tem no osso do quarto, aqui… Não tem jeito pra sarar, e quando eu desci por aqui, a dor me pegou, roendo bem dentro do osso, e eu sem poder dar o passo, entendeu? E aí, deixei meu menino, fardei ele e ele foi. (Mestre Deca 2008)
Nesse panorama, cheguei em Laranjeiras no início de 2009, como produtor e Diretor de um documentário sobre o XXXV Encontro Cultural de Laranjeiras que acontece nas comemorações da Festas de Reis. Convidado pela senhora Maria Ione Macedo Sobral que tinha sido reeleita Prefeita de Laranjeiras e que gostaria de retornar o caminho perdido dos significados do Encontro Cultural de Laranjeiras1 Reencontrei os mestres e grupos da cultura popular, amigos que fizemos nas nossas caminhadas e pesquisas de músicas e ritmos da cultura popular realizadas nos anos noventa, e constatamos a ausência do Mestre Deca na chefia do seu Cacumbi. O documentário mostrou, um punhado de homens amarrotados e sem liderança, participando do cortejo de abertura do referido Encontro. O Mestre Deca só participou no domingo na Igreja São Benedito na coroação das Taieiras11, muito abatido e sendo apoiado pelo filho Antônio Carlos. No mês de Março de 2009 fomos contratados pela Prefeita Ione Sobral a prestar assessoria na formulação de um planejamento nas áreas de turismo, Cultura e comunicação, de imediato ao chegar ao município, procuramos o Antônio Carlos, filho do Mestre Deca para ter notícias da saúde do Mestre, pois
desde o Encontro Cultural estávamos preocupados com a cena que presenciamos e gravamos para o documentário. O Antônio Carlos informou que o Mestre Deca estava em casa acamado com muitas dores e sem vontade nenhuma de continuar a viver.
A omissão estava clara. Nem a gestão municipal anterior sentiu a falta do mestre, e não teve o interesse em saber quais os motivos do afastamento dele, nem a sociedade civil sentiu a falta do Mestre na brincadeira do Cacumbi, e tampouco a família, que fugia da sua responsabilidade. A Prefeita trouxe a responsabilidade para a gestão. Foi constatado que o Mestre tinha fraturado a bacia e estaria impossibilitado de dançar no seu Cacumbi.
Em uma primeira ação quanto ao Mestre Deca, a Prefeita Ione Sobral, acompanhada da Secretaria de Saúde e por mim, fez uma visita ao Mestre, solicitando a família que deveriam levá-lo ao médico urgentemente. A Gestora Municipal autorizou que fosse utilizado todos os mecanismos da gestão municipal, no apoio a resolução do problema. Assim foi feito e todos os exames foram realizados. Nesse momento o total desmonte do Cacumbi era visível. Sem comando, os brincantes foram se afastando se desiludindo da brincadeira. Dos 18 componentes necessários minimamente para a brincadeira só restavam 14, o grupo estava no agonizando, era eminente o fim das histórias de luta dos Mestres que o chefiaram, o Cacumbi estava prestes a desaparecer.
A Doença física do mestre Deca já tinha como tratar, mas como a gestão municipal faria para renovar as energias e a força do Mestre na reestruturação do grupo? Em 12 de Junho de 2009 o então presidente Lula iria inaugurar o campus das Artes (UFS) em Laranjeiras, e todos os Secretários e assessores foram convidados para uma reunião 21 com a Prefeita. Uma das questões em pauta era o que a cidade daria de presente ao Presidente? Surgiu a oportunidade de colocar em prática as primeiras ações afirmativas12, ações que já estavam no planejamento, e que seriam de suma importância para a valorização e sobrevivência da cultura popular da cidade. A proposta da Secretaria da Cultura para a Prefeita era; A gestão daria ao presidente dois presentes: O primeiro presente seria uma imagem de São Jorge Guerreiro em madeira, do artesão Mestre Demar13, e o outro presente, o “chapéu do Mestre e o pandeiro”, que dá o ritmo à função que representava a cultura do Município. Além do presente a Prefeita convidaria os Mestres Demar e o Mestre Deca para junto com ela, entregar os presentes ao Presidente da República, como representantes da cultura Laranjeirense. Os Mestres da Cultura Popular, são fontes de memória e raros conhecimentos específicos em qualquer sociedade, essa era a hora do reconhecimento e da visibilidade aos Mestres. A prefeita Ione Sobral na sua fala ao Presidente Lula disse: Apresento a Vossa Excelência os nossos mestres da cultura popular[…], Laranjeiras deve muito a esses mestres e é uma honra está ao lado deles nesse momento tão importante para a cidade[…],o momento simboliza o soerguimento da tradição cultural e da geração de novas oportunidades para todos, faremos de Laranjeiras a Capital da Cultura Popular do País”.
Essa ação afirmativa em um primeiro momento, instigaram e encorajaram os filhos do Mestre Deca a voltarem para o grupo. Antônio Carlos (Neguinho), filho mais velho do Mestre e anos antes o Contra-Mestre da Brincadeira assume a coordenação do grupo, enquanto os irmãos José Carlos dos Santos (Testinha) e o José Adilson dos Santos (Zé Adilson) assume as funções de Mestre e Contra Mestre, respectivamente.
Para reforçar a ação, logo em seguida em 08 de Julho de 2009 nas comemorações dos 189 anos de emancipação do Estado de Sergipe, o governador do Estado Marcelo Déda, faz uma homenagem ao Mestre Deca com a Medalha do Mérito Cultural Tobias Barreto. Em Agosto de 2011 o Cacumbi de Laranjeiras recebe dois grandes incentivos em forma de homenagem, participou do Encontro Nacional de Cultura Popular – Brincantes Brasileiros em João Pessoa, onde receberam uma placa de Mérito pelo trabalho que estavam realizando em prol da cultura popular no Brasil, homenagem feita pela Fundação Cultural de João Pessoa. Já no dia 19 de agosto a pesquisadora e fotografa Janaina Couvo realizou uma Exposição dedicada ao Mestre Deca nas comemorações do Mês do Folclore nos salões do Museu Afro-brasileiro de Sergipe, localizado em Laranjeiras. Todas essas ações da gestão municipal estimularam a família do Mestre Deca, que voltaram a acreditar na importância do Pai. Ouvir do filho de mestre Deca, Antonio Carlos: “hoje sou um fazedor de cultura por algumas palavras que o meu pai me disse, sem a cultura não sobrevivo”. Os Filhos do Mestre Deca, conseguiram entender a importância, a referência cultural e a tradição do Mestre. A gestão municipal por sua vez, prova do remédio que ela mesmo autorizou a receita, e sua responsabilidade aumenta *na construção de políticas públicas afirmativas. Em 2009, assumo com a prefeita Ione a responsabilidade de transformar essas ações em políticas públicas permanentes. Os escassos recursos e a falta de visão e vontade política para o setor da cultura trazem uma dificuldade na realização dessa políticas e que sempre me fez acreditar, que o bom gestor é aquele que consegue instrumentalizar os atores da cultura para que cada vez menos, precise dele.
Em 29 de outubro de 2009, para garantir em lei alguns avanços da gestão, foi instituído em Lei nº 909/2009, a “Lei Mestres dos Mestres”. Uma ferramenta para a promoção da cultura popular. A lei visa registrar e reconhecer oficialmente o trabalho das pessoas que dedicam suas vidas para manter ativas estas diversas manifestações da cidade. Este instrumento jurídico estabelece que sejam realizados registros anuais através de edital público, avaliado por uma comissão de especialistas na área, e validados pelo Conselho Municipal de Política Cultural, criado dentro do Sistema Municipal de Cultura.
A lei garante recursos para garantia de auxílio mensal, com dois salários mínimos vitalício para os mestres reconhecidos, e o prêmio para dois grupos/tradicionais, para realização de projetos propostos com financiamento de 10 salários mínimos para dois anos consecutivos. Nas duas primeiras edições a Lei alcançou 08 Mestres e 04 grupos, que foram: Mestres Zé Rolinha (Chegança), Sales – falecido (São Gonçalo), , Demar (Artesão em Madeira), as Mestras Nadir (Reisado de Nadir), Dona Maria da Conceição (Samba de Coco) e Efigênia (Guerreiro Nova Geração), Mestre Ranulfo – falecido (Mestres das cordas do São Gonsalo), e o Mestre Deca (Cacumbi), além dos Grupos Cacumbi, Taieira, Samba de Pareia e Reisado Flor do Lírio.
O Mestre Deca realiza um dos seus maiores desejos, o de ser agraciado com sua aposentadoria no valor de dois salários mínimos por mês, um prêmio vitalício, um reconhecimento que demorou mais de trinta anos para chegar. Infelizmente as três gestões que sucederam a de Ione Sobral, mesmo sem deixar de pagar os mestres agraciados, arquivaram ilegalmente os editais e não premiaram mais ninguém, um absurdo que o ministério público podia defender a lei.
O Grupo Cacumbi Mestre Deca buscou os caminhos para fugir da dependência; e foi atrás da formação de integrantes e colaboradores para elaborar projetos, entender as minúcias dos editais e demais formas de captação, além de criar uma entidade jurídica que os represente. Seus integrantes criaram uma Associação de Brincantes com o objetivo de “decretar sua independência” e assim promoveram uma reestruturação exemplar ao viabilizarem uma nova forma de se “auto administrarem”.
A Secretaria Municipal de Cultura deu suporte técnico ao grupo e eles foram conquistando editais que possibilitaram o levantamento de recursos para renovação do vestuário e dos instrumentos, confecção de material promocional (cartões-postais, para-sóis, canecas, instrumentos e camisas), produtos que rendem ao grupo fundos para realizarem algumas ações como o auxiliar o tratamento de saúde para alguns integrantes, além de cestas básicas para os mais necessitados. O grupo está gravando/produzindo o primeiro álbum musical e o primeiro documentário “Hoje amanhã e sempre: A história do Cacumbi do Mestre Deca”.
Em 2013, o Grupo conseguiu, através da Vereadora Celígena Franco aprovar a
Lei que institui o dia 13 de Julho como o “Dia do Cacumbi Mestre Deca”, em
homenagem ao aniversário do Mestre. Mais uma vez o Antônio Carlos foi em
busca de apoio na Secretaria de Cultura e ouviu, como sugestão, a realização do
“Festival Mestre Deca – Encontro Nacional dos Cacumbis”, para que todos os
anos eles pudessem comemorar esse dia e perpetuar a data. O Festival aconteceu
em Julho de 2013, na Igreja de São Benedito e de lá pra cá acontece todos os
anos.
Olhando toda a trajetória de cinco anos na implementação, das, leis, decretos, Fóruns, discursos, e muita conversa, vejo que o principal motivo da gestão da cultura e do trabalho com o Cacumbi foi a preocupação com a reconstrução da identidade municipal, e que ela pode ser geradora de desenvolvimento econômico e social de Laranjeiras. O Grupo Cacumbi, reconstruiu sua identidade, buscou novos formatos para o diálogo com o poder público, aposta em organização quando monta sua associação, o grupo ganha notoriedade e se diferencia dos demais grupos da cidade; essa diferença causa desconforto no primeiro momento entre seus pares, para em seguida ser um exemplo, um modelo a ser analisado.
O Grupo ganhou mais visibilidade e reconhecimento social e aprendeu que os benefícios alcançados têm que ser distribuídos com todos. O trabalho realizado criou as condições propícias ao entendimento, valorização a diversidade das manifestações culturais Laranjeirenses. Houve, simultaneamente, a inclusão cultural, social e econômica.
Isso tudo em nome do Mestre Deca, meu amigo que nos deixou hoje dia 26 de Junho de 2022, depois de uma luta pela vida, uma luta boa, uma luta necessária, nunca jogou a toalha, sendo inspiração e farol para seus filhos e para a cultura popular. O desejo dele, ele alcançou, mas como um grande Mestres ele queria para todos. E isso é trabalho nosso agora, a Lei dos Mestres do estado já foi aprovada pelo Conselho Estadual de Cultura, falta a gestão estadual remeter para apreciação da Assembleia, as leis que beneficiam são de estado não de governo. E como diz os versos do Ilariô de Pirambu: Pisa Maneiro, Pisa Maneiro, quem não pode com a formiga não assanha o formigueiro. Va em paz meu amigo, você cumpriu sua parte!




