O protagonismo de Zelita Correia

Afonso Nascimento – Professor de Direito

Zelita Coreia entrou na política não partidária quando, em 1961, pisou na Faculdade de Direito. Antes disso, enquanto estudante secundarista no Ateneu, participou da Arcádia, uma academia literária composta por estudantes. Embora essa escola fosse muito politizada no período em que Zelita estudou, a política estudantil parece não ter atraído a sua atenção. No entanto, ao começar a frequentar a faculdade foi convidada pelo padre Luciano Duarte a ingressar nos quadros da Juventude Universitária Católica (JUC). Como isso ocorreu ? Da mesma forma que os escritórios de advocacia nos EUA buscam os melhores estudantes nas escolas de Direito, esse religioso procurava estudantes com habilidades de líderes nas seis primeiras faculdades sergipanas para compor a JUC, da qual era instrutor espiritual.  Foi assim que alguém  sugeriu o nome de Zelita e ela aceitou o convite, acontecendo, desse modo, uma conversão importante na sua vida. De acordo com ela, a sua formação religiosa anterior era o espiritismo kardecista. Como membro da JUC, passou a frequentar as missas celebradas exclusivamente para estudantes universitários pelo futuro arcebispo da diocese de Aracaju, na Igreja do Salvador, todas as quintas-feiras.

O período de quatro anos (1961-1965) vividos como estudante de Direito é o mais rico em sua biografia de elite política estudantil. O dia de vinte e quatro horas era pouco  para tantas atividades políticas! O seu protagonismo político teve a ver com a sua participação na JUC (organização de estudantes universitários católicos que buscava controlar os centros e diretórios acadêmicos), na política estudantil da Faculdade de Direito (embora sem exercer nenhum cargo mandato formal no Centro Acadêmico “Sílvio Romero” ou CASR), enquanto vice-presidente da União de Estadual de Estudantes de Sergipe (UEES) (órgão máximo da representação estudantil, posto que ainda não existia qualquer universidade sergipana e que era o braço político da União Nacional dos Estudantes-UNE) e como funcionária pública responsável pelo programa de alfabetização adotado e dirigido por Luiz Rabelo Leite, então  secretário  de Estado de Educação. Nesses postos políticos, a sua liderança ganhou forma e  muita visibilidade em todas as trincheiras mencionadas. A sua estrela brilhou. Militou mais na JUC (”um tempão”) recrutando e organizando estudantes universitários católicos. Fez parte do grupo que escolheu Albano Franco para ser presidente do CASR. Pouco antes do golpe militar de 1964, o seu grupo da UEES, dirigida por Adalberto Pinto  de Carvalho, ao tomar conhecimento da vinda a Aracaju do embaixador americano Lincoln Gordon, alugou um carro de propaganda que saiu pelo centro de Aracaju denunciando que ele representava o imperialismo que conspirava contra o governo constitucional de João Goulart.

Esse mesmo grupo da UEES, articulado com o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE, promoveu a apresentação de peças teatrais engajadas na Faculdade de Direito e em outros espaços culturais. Na condição de coordenadora do programa de alfabetização (MEB) do governo estadual, Zelita usava o método de Paulo Freire como forma de alfabetizar e politizar a massa de trabalhadores  rurais de Sergipe. Zelita tinha a sua disposição a emissora de rádio pertencente à Igreja Católica,  igreja essa à frente da qual estava dom José Vicente Távora, um arcebispo que se batia pelas causas populares.  Segundo  ela,  nessa  época  de  estudante,  as suas responsabilidades nos espaços ocupados aumentaram, bem como o seu engajamento político nas  lutas sociais ao sair da JUC e entrar na Ação Popular (AP), grupo político de estudantes católicos radicalizados. As forças políticas de esquerda viviam um período de grande euforia política, só faltando o desfecho desse enorme processo de mobilização política. Foi aí que os militares decidiram dar um golpe de Estado, jogando por terra o sonho de jovens idealistas, como Zelita, que acreditavam que uma sociedade menos injusta e menos desigualitária era possível com a sua ação política.

Zelita Correia participou como protagonista dos momentos decisivos  do golpe militar em Sergipe. Com efeito, ela e seu grupo de colegas militantes tomaram conhecimento do golpe em andamento no dia 31 de março de 1964. A grande questão presente nas cabeças dos membros do mundo político partidário e não partidário era a seguinte:  seria possível vencer o golpe militar posto na rua pelo general Mourão em Minas Gerais? O populista governador de Sergipe, João de Seixas Dória (que tinha dito a Miguel Arraes tempos antes: “O segundo tiro, depois de Pernambuco, será de Sergipe!”), estava fora, como quase sempre fez durante seu mandato. Zelita ficou sabendo que o governador chegaria de viagem feita ao sudeste. Então se dirigiu ao aeroporto de Aracaju para saber o que fazer, juntamente com o staff mais próximo do governador. Ao desembarcar, Seixas Dória informou que o seu avião tinha parado em Salvador e ele tinha conversado com o governador da Bahia, que já tinha aderido ao golpe e que recomendou ao sergipano que fizesse o mesmo. Pouco tempo depois, o governador lhe dirigiu a palavra dizendo:”Princesa, está tudo perdido!” E agora? Ainda no aeroporto tomou conhecimento que um policial militar, mostrando uma arma  de fogo, espalhara que iria matar Seixas Dória. Então ela decidiu acompanhar o governador  até o Palácio  Olímpio  Campos,  subiu as escadas  da  sede do governo  e ficou à  espera  do policial,  noite  a  dentro,  que  não  apareceu.  O governador fez seu pronunciamento pela Rádio Difusora, órgão estatal, e aguardou os desdobramentos políticos.

Zelita Correia não era nem comunista, nem marxista. O combustível ideológico que a movia era um humanismo cristão e progressista. Sabia o que poderia acontecer a ela e a seus colegas. Mesmo assim, foi participar de reunião com seu grupo para decidir o que eles deveriam fazer. No adiantado da noite, apareceu o presidente da UEES, Adalberto Pinto de Carvalho, com uma montanha de panfletos que queria que fossem distribuídos  à população aracajuana  no dia 1 de abril. O objetivo  dessa panfletagem seria provocar a prisão proposital dos militantes. Muitos discordaram dessa ideia, Zelita no meio, mas acabaram fechando a questão com um sim. Retornando a sua casa, teve a pior noite de sua vida, precisando ir ao banheiro diversas vezes. Felizmente, quando apareceu para começar esse ato maluco na manhã seguinte, a ordem  foi a de não  mais fazer a panfletagem. Foi um grande alívio! – me disse ela.

Fingindo que tudo estava muito normal, Zelita continuou a frequentar a Faculdade de Direito, no ano letivo que só estava começando. Logo percebeu que antigos colegas não queriam conversa com ela, na verdade, queriam distância dela! Eles falavam e ela sabia que poderia ser presa a qualquer momento. Já que era assim, fez a sua maleta e teve que esperar até o 13°. de maio, quando três militares foram prendê-la  na Faculdade de Direito. Foi aí que entrou em ação o diretor da faculdade, Gonçalo Rollemberg Leite, levando os três visitantes fardados até o portão da escola, mas do lado de fora. Não toleraria a invasão daquele espaço repleto de elites jurídicas e políticas. Chefiados pelo tenente Rabelo, só então os militares mandaram chamar Zelita, colocaram-na no seu carro e rumaram para o quartel do 28°. BC, depois de recolher, no caminho, mais cinco universitárias que também estavam envolvidas na mobilização política mudancista.

Na caserna do Exército, primeiro foram colocadas em uma sala juntamente com homens, igualmente feitos prisioneiros políticos. Zelita e suas colegas reclamaram e conseguiram ser transferidas para uma sala usada por oficiais do Exército. Nesse recinto ficou presa por cinquenta e dois dias e respondeu a interrogatórios, mas não foi torturada. Como se não bastasse seu sofrimento com a prisão, surgiu um capelão do Exército chamado Amaral, perguntando se alguém queria se confessar. Elas responderam numa só voz: “Não!”. Aos domingos, o padre Luciano Duarte ia celebrar uma missa para os presos, já que ele era o instrutor espiritual dos estudantes católicos. Não precisa dizer que a resposta dada ao capelão foi a mesma que recebeu esse homem de batina. Ali, naquele grupo, ninguém tinha pecado para contar!

Enquanto esteve presa, vendo o tempo passar, ficou deprimida, mesmo com as visitas dominicais de seus familiares. Numa sociedade que funciona até hoje à base de relações pessoais, Zelita foi retirada do quartel do Exército por um professor chamado João Dantas Barreto, ”Barretão”, que era maçom como o comandante do 28º. BC. Respondendo a processo em liberdade, conseguiu graduar-se em Direito no ano seguinte. Conseguiu o diploma de bacharel em Direito, mas aí um novo problema foi colocado para ela. A OAB de Sergipe não concordava em dar a Zelita  a autorização para exercer o ofício de advogada. Foi assim que decidiu se mudar para Salvador, na Bahia, onde era desconhecida e a OAB baiana lhe deu a carteira de advogada. Depois disso, a sua militância política conhecerá um hiato, com ela se dedicando mais as suas atividades profissionais. Advogou um pouco em Salvador, antes de ser aprovada em concurso para promotora pública estadual e ser lotada na Chapada Diamantina, um pouco longe de tudo. Felizmente, passado algum tempo,  conseguiu  a sua remoção para Paripiranga, na fronteira com Sergipe, onde se casou com  comerciante  e teve com ele duas filhas. Depois que ficou viúva e foi aposentada por invalidez (tendo a ver com a sua passada prisão política), fez o caminho de volta para Aracaju.

Na capital sergipana, retornará a sua militância política não partidária com o grupo de mulheres e homens que fundaram o vitorioso comitê sergipano que lutava pela anistia de presos políticos, indivíduos desaparecidos, mortos ou respondendo a processos judiciais e exilados, bem como participou do comitê feminino da prefeitura  de Aracaju, no período em que Jackson Barreto foi ocupou a cadeira de prefeito. Atuou no setor de Direito Humanos da OAB sergipana, então recebendo medalhas desse órgão de classe em Brasília e em Sergipe. Através da senadora Maria do Carmo Nascimento, conseguiu emprego como procuradora do Estado. Por último, para fechar a sua militância política, a convite do ex-governador Antônio carlos Valadares, candidatou-se a deputada estadual, obtendo apenas setecentos votos. Em outras palavras, não conseguiu converter o seu capital político em mandato na política partidária. Retirou-se então da vida pública. Hoje, Zelita está muito bem viva, lúcida, bem-humorada e com boa memória, conversando do alto de seus oitenta e um anos! PS: Esse pequeno artigo não poderia ter sido escrito sem as entrevistas telefônicas que Zelita Correia gentilmente me concedeu. Além da cessão de documentos do SNI disponível no Arquivo Nacional, a interlocução com o generoso do historiador  José Vieira da Cruz foi fundamental para a minha compreensão do papel político de Zelita Correia como estudante de Direito. Por fim, consultei o livro de Ibarê Dantas, “A tutela militar em Sergipe” e o livro de José Vieira da Cruz, “Da autonomia à resistência democrática”, obra incontornável para quem deseje pesquisar sobre o movimento estudantil sergipano.

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