Afonso Nascimento
Professor de Direito da UFS
Legalmente, eu não sou aracajuano. Fui registrado como natural de Salgado, pois lá residiam os meus pais. Mas aqui tem um porém. Eu não fui parido em Salgado, mas num trem (nasci em movimento) que levava minha mãe salgadense grávida para me pôr no mundo em Itaporanga, cidade natal de meu pai na qual tinha acabado de ser inaugurada uma maternidade pelo governador Arnaldo Garcez. Meu pai me contou que o primeiro a nascer naquela maternidade teria com padrinho esse coronel conhecido como “vaqueiro”, porque Arnaldo Garcez era um homem de poucas letras. Eu fui o segundo a dar entrada no maternidade. Entrei como “indigente”. Fui batizado por um ferroviário e por sua filha lá em Salgado.
Depois de algum tempo vivendo em Salgado, meu pai ferroviário foi transferido para Pedrinhas, e minha família foi morar pela segunda vez perto de outra estação ferroviária. Isso merece um parêntesis. Sempre morei perto de estações de trem por que meu era ferroviário ou, por outra, perto do local de trabalho. Quando meu pai foi transferido para Aracaju, nós fomos morar no Siqueira Campos, primeiro na rua Amazonas e depois na rua Espírito Santo. É por isso que me considero aracajuano e menino do Siqueira, pois no Aribé vivi mais tempo. Nesse bairro morei duas vezes, primeiro como menino e depois como adolescente e jovem, com uma passagem de três anos por Laranjeiras.
Tive uma infância feliz no bairro Siqueira Campos. Essa passagem pelo bairro popular (alguns esnobes moradores do centro de Aracaju diziam que lá só tinha “ralé” e “gentinha”) teve uma forte influência na minha formação em todos os sentidos. Vou tentar dar alguns exemplos. Foi no bairro Siqueira Campos, também conhecido como Aribé, que passei a frequentar a Igreja Nossa Senhora de Lurdes, em preparação para a minha primeira comunhão. Com efeito, todo o sábado ou domingo, eu e outros guris recebíamos aulas de catecismo com duas freiras, depois do que eu e um monte de crianças seguíamos de mãos dadas em direção ao Cinema Bonfim e, às vezes, ao Vera Cruz para assistir a diversos tipos de filmes. Dessa experiência nasceu o meu interesse permanente pelo cinema. Para a minha primeira comunhão usei o meu primeiro terno. A meninada me vendo caminhar com aquela roupa feita por alfaiate dizia: “Vai se casar, hein?” Foi aí que fui tornado cristão, como membro do catolicismo popular.
Outro momento muito importante de minha vida foi quando aprendi a ler. Tenho uma lembrança muito vívida dessa época. Minha primeira escola foi o Ginásio Senhor do Bonfim, dirigido por duas irmãs, dona Edinelza e dona Gió. A primeira tinha alguma ligação com o Quartel do 28 BC e a segunda era a pessoa que cuidava da disciplina e de quem a meninada tinha muito medo. Nessa escola, talvez por causa das ligações de Dona Edinelza com os militares, os alunos aprendemos muitas marchas militares. Bom, o que importa é que foi nesse ginásio privado é aprendi as minhas primeiras letras. Não me lembro do nome da professora, mas lembro muito que era minha mãe quem me ajudava com os deveres de casa. Levei muito cascudo e puxão de orelha de minha mãe. “Menino burro!”, dizia. Passou algum tempo assim, até que um dia tive um susto maravilhoso. Um choque! Eu pegava qualquer livro, qualquer revista, qualquer gibi e sabia ler! Sem querer cair num lugar comum, foi um momento mágico e dele nasceu o meu interesse por livros, a vontade de querer ler sobre tudo!
Mais uma memória forte de minha infância eram os jogos da Portuguesa, meu primeiro time de futebol que ficava no Siqueira. O campo da Portuguesa estava localizado na minha rua, uma quadra adiante. Em frente ao campo ficava a sede da Portuguesa. Nos dias de jogos do meu time, muita gente ia ver o espetáculo. Jogadores? Não lembro de nenhum atleta, a não ser de Zé Veneno, porque ele morava por ali mesmo. Esse campo de futebol, com traves permanentes, ficava onde tem hoje um conjunto habitacional ao lado do posto do INSS, lá na rua Bahia. Foi ali mesmo que surgiu meu interesse pelo futebol. Joguei muita pelada, com o campo seco ou encharcado, mas nunca fui um craque. Dizendo isso, sou levado a falar de uma experiência de ver, mais tarde, documentário sobre a Copa do Mundo de 1970, no Cinema Aracaju. Saí maravilhado querendo ser jogador de futebol. Foi muita emoção!
Naturalmente eu fui o único menino do Siqueira. Havia muitos guris como eu com quem eu partilhava brincadeiras, jogos, brinquedos, etc. Eram todos de minha rua ou do Ginásio Senhor do Bonfim. Além do futebol, a gente brincava de pé em barra (dois times como no futebol, um traço no chão e em cada lado um ponto a ser alcançado sem ser tocado por algum competidor,), futebol de mesa (com “os jogadores” de plástico, ou de casco de coco ou de mica de avião), etc. Os brinquedos eram de madeira (o Mané gostoso), de madeira e de lata (carrinho), de barro (bois, cavalos), etc. Já existiam brinquedos de plástico e de metal como carros pequenos chamados de “rabo de peixe”. Além de tudo isso, como meu pai era ferroviário, eu costumava ir brincar na Estação da Leste.
Nessa época a minha mãe ainda não tinha tido a “ninhada” de seus dez filhos. Mulher de fibra que sabia ler e escrever e que tinha que cuidar dos afazeres da casa, cuidar dos filhos e filhas e que ainda estava encarregada de administrar os nossos conflitos. Para ajudá-la nas suas tarefas, tinha uma palmatória pendurada na parede. Como meu pai era ferroviário, a gurizada tinha que “andar na linha”. Meu pai não tinha escolaridade, nunca frequentou uma escola. O que lhe faltava em termos de cultura escolar, era compensado com a habilidade de excelente contador de histórias. Quando relatava um caso qualquer, parecia ter presenciado ou participado dele. Como ferroviário da Leste, era funcionário público federal, tinha um salário seguro, casa própria e nunca ficou desempregado. Isso nos permitia ter crédito na praça para comprar fiado. Tinha salário e era bom pagador. Mas houve fases excepcionais, em que o dinheiro não era suficiente para nossa alimentação e minha mãe improvisava um caneco de café, açúcar e farinha como refeição. Além disso, minha mãe usava a LBA para cuidados médicos dos filhos e de lá trazia pequenos sacos de um leite em pó da Aliança para o Progresso. Era um leite muito bem-vindo.
Comparando o Siqueira da primeira metade dos anos 1960 como o Siqueira de hoje, são duas coisas completamente diferentes. O Siqueira de hoje é um bairro de clínicas médicas e laboratórios, de oficinas para carros, lojas que vendem peças para automóveis, está todo pavimentado, tem lojas e ambulantes vendendo roupas, e por aí vai. Muito diferente do velho Aribé sem pavimentação, esgotos despejados nas ruas, possuía vazios entre casas numa mesma quadra, guardava pequenos sítios, exibia valetas e tinha uma população muito menor. Havia um lugar que eu especialmente gostava depois de bater uma pelada na Baixa Fria: era saciar a sede com a água na Xoxota da Veia, uma fonte que ficava perto da linha de trem. Aquele foi mesmo um tempo muito especial de minha vida!